Teatro Moderno de Lisboa

<font color=0094E0>«Uma reviravolta no teatro em Portugal»</font>

O Avanteatro assinala este ano o 47.º aniversário do Teatro Moderno de Lisboa com a apresentação de O Tinteiro, de Carlos Muñiz, a primeira peça levada à cena pelo grupo, em 1961, no Cinema Império. A propósito da comemoração levada a cabo na Festa, fomos falar com Carmen Dolores, José Morais e Castro e Armando Caldas, actores e fundadores do TML.

O TML foi o primeiro grupo de teatro independente que houve em Portugal

Quase meio século depois, como é que recordam a fundação do TML?

Carmen Dolores: O TML foi uma reviravolta no teatro em Portugal e nas nossas vidas. Foi o despertar da geração dos «mais velhos», mas também de uma nova geração, na qual o Morais e Castro e o Armando Caldas se incluíam.
Cada um de nós tinha as suas ideias, éramos muito diferentes uns dos outros, mas isso foi uma das coisas interessantes no projecto, porque apesar do que nos diferenciava, partilhávamos todos um ideal, o de poder fazer um teatro mais a propósito do momento que estávamos a viver.

Armando Caldas: Tudo isto acaba por ser despoletado pelo Francisco Ribeiro quando ele decide acabar com o Teatro Nacional Popular, onde eu estava como actor. Vimos assim a necessidade de fundarmos um grupo cuja preocupação fosse apresentar um reportório de qualidade, que fugisse à tradicional forma de encarar o teatro apenas como entretenimento e, simultaneamente, despertar o interesse de um novo público.

José Morais e Castro: Eu costumo dizer que o TML foi a minha universidade de teatro porque aprendi imenso com os colegas da geração da Carmen, não apenas do ponto de vista técnico, mas também com a atitude humana deles: a verticalidade, a espinha direita.
No TML há sobretudo a vontade de fazer um teatro actualizado, bem representado e bem encenado, sério sem ser elitista, que fosse por isso ao encontro do público. A prova do sucesso é que tivemos o Império esgotado, plateia e primeiro balcão, às seis e meia da tarde e aos domingos de manhã.

AC: E há que considerar que o Império levava 800 pessoas na plateia e outras 300 pessoas no primeiro balcão, lotações que hoje não existem.

Há pouco referiam que a ideia era fazer um teatro mais a propósito no contexto em que se vivia, que cativasse as pessoas. Tem isso a ver com o tipo de conteúdos que eram apresentados? O que é que o TML trouxe de novo?

JMC: Não só pelo conteúdo mas pela forma, demonstrámos que era possível fazer algo que não fosse só para três dias, como hoje tantas vezes se faz. Era para o público. O TML cativou a atenção cultural das massas que já tinham alguma consciência política e social. O Tinteiro tinha na altura uma força fantástica. Infelizmente, o espectáculo continua actual 34 anos depois do 25 de Abril.

AC: Fundamentalmente rompeu com um teatro, digamos, convencional. Foi o primeiro grupo de teatro independente em sociedade de artistas que houve em Portugal, e a partir do qual surgem todos os outros: o Grupo 4, A Cornucópia, A Comuna, Os Bonecreiros, o Teatro Experimental de Cascais, etc. Já agora deixa-me dar destaque ao papel do engenheiro Vítor Veres, companheiro da Carmen Dolores, sem o qual não tinha havido Teatro Moderno de Lisboa, não apenas pela parte administrativa, mas pela grande influência que tinha no engenheiro Gil, que era o responsável do Cinema Império.
O Tinteiro, pelo tema que desenvolve, por aquilo que significa, pela própria representação e pela encenação do Rogério Paulo, despertou em todos os espectadores um movimento social e político que transcendeu a própria iniciativa do TML.
Criou-se em determinada altura o Núcleo dos Amigos do Teatro Moderno de Lisboa. Chegámos a ter cerca de 10 mil aderentes, e muitas vezes esses amigos organizavam conferências, debates após o espectáculo. A importância em termos políticos e sociais é enorme, e aproveito para agradecer ao Avanteatro a ideia de celebrar estes 47 anos.

Como é que as pessoas reagiam, como é que recordam a interacção com o público?

CD: Para muitas pessoas foi a iniciação no teatro, e ainda hoje quando nos encontram falam nisso com orgulho, como se fizesse parte delas. Uns eram estudantes na altura que começaram a frequentar o TML, outros não.
Quando não tínhamos os dias todos no Cinema Império, levávamos o espectáculo para fora de Lisboa e era um sucesso.

O peso da censura

Como é que se fazia sentir a censura? Como é que enquanto profissionais lidavam com ela?

CD: Era difícil. Eu várias vezes tive contactos com a censura porque ser considerada menos perigosa. Ainda me lembro de que para representar o Dente por Dente, do Shakespeare, foi muito difícil convencê-los a não proibirem o espectáculo.
Em termos pessoais havia mágoa, mas tentávamos ultrapassar, porque infelizmente já estávamos habituados. Era na rádio, na televisão, fazia-se tudo com cortes, e não eram só políticos. Lembro-me que fiz o Um Mês no Campo, do Turgeneve, e que a senhora casada que se apaixonava por um rapazinho teve que passar a ser viúva, porque de outro modo não podia ser.

AC: No TML a censura sentiu-se sobretudo em Os Três Chapéus Altos, do Mihura. Na peça havia uma cena em que a personagem tinha que vislumbrar um farol com uma luz vermelha, de maneira que a censura proibiu a palavra vermelha e obrigou-nos a substituir a cor da luz, penso que para lilás. Um farol com luz lilás…

JMC: Proibiram também o Júlio César, do Shakespeare, na última época, quando tínhamos um subsídio da Gulbenkian cujo critério era fazermos uma peça do Shakespeare, um contemporâneo português e um contemporâneo estrangeiro.
O Júlio César fazia parte do índex da censura, isto é, era proibido, e fizemos então o Dente por Dente, também do Shakespeare, numa adaptação extraordinária do Luiz Francisco Rebelo, com canções do António Vitorino de Almeida, uma coisa brechtiana.
Depois fizemos o Render dos Heróis, do José Cardoso Pires, com música do Carlos Paredes, que os gajos engoliram mas vetaram toda e qualquer notícia nos jornais que não fossem anúncios pagos e críticas.
Finalmente, proibiram Os Porquinhos da Índia, de Ive Jamiac…

CD: Exacto, mandámos a peça à censura prévia, fomos ensaiando, e quando disseram que não podíamos fazer já não havia tempo para ensaiar outro espectáculo, e assim a Gulbenkian cortou-nos o subsídio.

Porque é que O Tinteiro mantém actualidade, como referia há pouco o Morais e Castro?

JMC: Porque é um problema de exploração do homem pelo homem.

AC: É toda a estrutura que se monta ali naquele escritório, desde a bufaria até à subserviência, onde existem uns testas de ferro que denunciam os que amam a liberdade, os que gostam que a justiça seja mais ampla.
O espectáculo que através do Intervalo Grupo de Teatro vamos agora levar à Festa do Avante! continua actual, e prova disso é que um trabalho inicialmente pensado para durar três meses, já está em cena há cinco, com o acontecimento social notável de se organizarem excursões, espontaneamente, para virem ver a peça.

Com a Festa quase a abrir as portas, que mensagem deixariam aquelas pessoas que através dela estão agora a tomar contacto com o teatro?

CD: Que se interessem, que comecem a procurar informação, que quando vão ver um espectáculo passem a palavra aos outros, porque acaba por ser a maior publicidade. O teatro vive do publico, e se não o tiver…


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